Da preparação até agora percorri mais de 4 mil km, passando pelo Pantanal Sul-Mato-Grossense, SP, RJ e MG. No trajeto várias situações, chuvas, neblina, frio, calor intenso, muito trânsito, vi acidentes, rezei, assustei-me, acreditei e tive muito medo também. Hora por auto-estrada tendo como companhia a paisagem, hora no trânsito urbano com toda a sua loucura.
Em SP o pensar e agir a cem por hora; as estatíscas e os casos reais do que se vê por onde anda (são acidentes e muito sofrimento); no Rio a preocupação da violência urbana, cruzar as linhas vermelha e amarela passando por favelas e rotas do tráfico. O esperar pelo desconhecido (como estou contando com ajuda de amigos e amigos de amigos na maioria das vezes só passo a conhecer a pessoa quando já estou na casa dela, rs), descer serras, subir serras, enfrentar o mau tempo e os motoristas malucos. Olhar e ver chão e mais chão...
o olhar...
As paisagens encantam e chocam, com elas o sentimento de querer (mas não poder, nem conseguir) expressar em imagens o que se vê e sente é estranho ( o olhar, o pensamento e o sentimento que não se descreve e não se repete). Por momentos o olhar busca o arquivo de vivências anteriores, busca respostas e levanta outras questões. Dá vontade de voltar aos braços da familia e amigos, e ao mesmo tempo de prosseguir. O coração se arrebenta, se fortalece e o tempo não pode ser mais "compreendido" ou explicado.
Imagino (como o que tenho sentido) como deve ter sido para os militantes políticos em época de ditadura, que iam em busca de seus ideais e do desconhecido (mesmo tendo alguém a esperar, esse alguém muitas vezes era desconhecido, isso pra salvarem a própria vida).
Será que o olhar dos olhos é o mesmo que o olhar da alma?
o que fica disso tudo...
O contato com essa experiência/vivência é algo surpreendente. Ao mesmo tempo histórias de pessoas que levantam sacodem a poeira e vão a luta, de outro lado a crueldade humana. As favelas, o medo, a descoberta, as surpresas, o querer fazer e não poder, o dar explicações, ouvir, sentir, a fragilidade e a complexidade humana. O estar sozinho e entre multidão ao mesmo tempo. Não ter um ombro amigo mas, ser recebido pela solidariedade, a exposição, o crescimento, a partilha, tudo tão intenso e tão junto. É ao mesmo tempo ser forte e fraco, bom e ruim, literalmente se lançar a sorte do destino.
É engraçado: saber o que se quer, para onde ir, mas numa subjetividade não conhecer os caminhos e os caminhantes do percurso. É uma constante de incerteza, de aventura, de medo, de ousadia, de descoberta e ao mesmo tempo de coragem. É estar em contato com a dualidade do ser humano, ir do simples ao complexo em fração de segundos.